A Reserva

Conheça a RPPN Feliciano Miguel Abdala

O domínio da Mata Atlântica ocupa cerca de 36% do estado de Minas Gerais. Menos de 4% dessa formação ainda está coberta por vegetação natural, que se estendia originalmente por todo o leste mineiro. Seu histórico de ocupação, caracterizado pela exploração do ouro, agricultura, pecuária e, mais tardiamente, pela siderurgia, determinou uma paisagem dominada por pequenos fragmentos (em sua maioria menores que 50 hectares) inseridos em uma matriz fortemente antropizada.

A Reserva Particular do Património Natural (RPPN) Feliciano Miguel Abdala representa, neste contexto um importante remanescente florestal, localizada no município de Caratinga, à margem esquerda do Rio Manhuaçu, na Bacia do Rio Doce, em Minas Gerais. Com área de 957 hectares, a Reserva corresponde a 72% da Fazenda Montes Claros, formada por 80% de matas em bom estado de conservação e 20% de pastos abandonados e florestas em regeneração. Muitos vizinhos da Fazenda Montes Claros possuem pequenas áreas de florestas em suas propriedades, adjacentes à RPPN-FMA, o que totaliza aproximadamente 1.450 ha de Mata Atlântica original na região.

Em razão do elevado número de plantas endémicas e da rica fauna de aves e mamíferos ameaçados de extinção existentes na área, a RPPN é considerada uma das áreas prioritárias para conservação da biodiversidade na Mata Atlântica. Dois documentos registram essa classificação: o "Atlas para a Conservação da Biodiversidade em Minas Gerais (SEMAD-MG)" e o estudo "Avaliação e Ações Prioritárias para a Conservação da Biodiversidade da Mata Atlântica e Campos Sulinos", realizado pelo Ministério do Meio Ambiente.

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Localização

Mapa RPPN

Características

O clima da região é tipicamente quente, com chuvas de verão. A estação seca vai de abril a setembro e a chuvosa de outubro a março. A pluviosidade média anual é de cerca de 1.000 mm, podendo variar consideravelmente de ano para ano.

A topografia da região é montanhosa, com altitudes variando de 318m a 628m eabriga trechos de duas sub-bacias, separadas por cristas de morros que podem atingir 628m. São os córregos Jaó e Matão, que também inspiraram os nomes dos dois principais grupos de muriquis da reserva: o "grupo do Matão" e o "grupo do Jaó".

A reserva é marcada pela paisagem da Floresta Estacionai Semidecidual, também conhecida como floresta mesófila. Essa fisionomia vegetal é condicionada por estações secas e chuvosas bem marcadas, e constituída por árvores perenifólias (que mantêm a folhagem ao Longo do ano) e semi-caducifólias (que perdem parte da folhagem na seca).

Existe uma considerável variação na estrutura da floresta nos limites da RPPN-FMA. A mata em bom estado de conservação, com poucos distúrbios, está restrita aos vales dos córregos Matão, Jaó e Sapo. Com o aumento da altitude as matas primárias passam gradativamente a matas secundárias perturbadas e mata jovem em regeneração, e a arbustos e áreas infestadas nos topos de morro. Nos trechos com dossel contínuo as árvores atingem cerca de 25m de altura, sem levar em conta as árvores emergentes que atingem uma altura superior a 35m.
A preservação da área é crítica para muitas espécies da fauna. Dentre os levantamentos realizados foram encontradas 

espécies consideradas ameaçadas de extinção no Estado de Minas Gerais. Nas matas da RPPN-FMA são encontradas cerca de 362 espécies de vertebrados (mamíferos, aves, peixes, répteis e anfíbios). A reserva possui 79 espécies de mamíferos, constituindo, juntamente com o Parque Nacional do Caparão, uma das áreas mais ricas em mamíferos do Vale do Rio Doce.

A mais densa e variada população de primatas conhecida no Estado de Minas Gerais está localizada na RPPN, com destaque para a ocorrência do muriqui-do-norte, uma das 25 espécies de primatas mais ameaçadas do mundo. Cerca de 500 indivíduos sobrevivem hoje na natureza, distribuídos em pequenas populações nos estados de Minas Gerais e Espírito Santo. Embora muitas outras novas populações tenham sido descobertas nos últimos anos, a da RPPN-FMA é ainda a maior população conhecida, com cerca de 170 indivíduos e também a única considerada viável.

Estudos da avifauna registraram a ocorrência de 204 espécies na área. Este número representa 52% das espécies que ocorrem em todo o Vale do Rio Doce (393 espécies) e 26% das aves de Minas Gerais (774 espécies). Foram identificadas, até o momento, 37 espécies de anfíbios e, em recente trabalho do Departamento de Zoologia da UFMG, foram catalogadas 38 espécies de répteis. Estas incluem 21 espécies de cobras, entre elas a Lachesis muta (surucucu, dourado), que pode ser considerada em extinção no estado de Minas Gerais. Associada à presença de Mata Atlântica preservada, esta espécie é encontrada hoje apenas na RPPN e no Parque do Rio Doce.

No Rio Manhuaçú e seus afluentes foram registradas 25 espécies de peixes, Dos quais 19 constam na região da RPPN-FMA Espera-se que estudos mais detalhados revelem novidades. Este número representa cerca de 1/3 das espécies da bacia do Rio Doce. O dourado (Salminus maxiilosus) é citado por antigos pescadores da região como espécie da área de mata do Rio Manhuaçú, mas extinta nos dias atuais.

Uma espécie de borboleta presente nestas matas, a Heticonius nattereri, da família Nymphalidae, è classificada como "ameaçada de extinção" pelo IBAMA e "em perigo" pelo Conselho Estadual de Política Ambiental (COPAM).

Os altos níveis de biodiversidade encontrados na RPPN-FMA constituem um importante atrativo para atividades de pesquisa, conscientização ambiental e ecoturismo. A visitação turística na RPPN-FMA, embora incipiente, tem potencial para constituir uma importante ferramenta para a proteção da floresta e geração de recursos para a área. A fauna, especialmente os primatas, está habituada à presença humana, tornando muito fácil avistar os animais. A presença do muriqui pode transformar Caratinga em algo parecido com as "montanhas dos gorilas" da América do Sul, o único lugar onde os visitantes podem certamente observar esta espécie altamente ameaçada em uma rápida visita. Esta é uma grande atração para turistas e torna a reserva útil em esforços para a conscientização ambiental. Portanto é fundamental o desenvolvimento de um amplo planejamento de ecoturismo para a EBC, capaz de gerar recursos financeiros que poderão inclusive subsidiar as pesquisas científicas na área. 
Eduardo M. Veado

 
 

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Sr. Feliciano Miguel Abdala

Histórico

Filho de um imigrante libanês com uma brasileira, Feliciano Miguel Abdalla encontrou nas lides com a terra sua verdadeira vocação. Ao contrário do pai, comerciante, apaixonou-se por trabalhar a terra e dela tirar seu sustento. Jovem e ousado, alimentava o sonho em adquirir uma propriedade que lhe "enchia os olhos", na qual era feita uma das pausas para "dormida" da tropa de mulas, único meio de transporte que propiciava o comércio naquele tempo. Até que numa manhã de inverno do ano de 1944, quando a névoa ainda recobria a paisagem, Feliciano convidou "Seu Benzinho", proprietário da Fazenda Montes Claros, para uma conversa a dois.

A amizade, que então já os unia, facilitou a negociação e em pouco tempo acertaram as condições da venda. No entanto, antes de fechar o negócio com o fio do bigode, Seu Benzinho impôs uma condição: Feliciano deveria jurar proteger a mata da fazenda. Refeito da surpresa que o pedido pudesse ser algo que impedisse o negócio, Feliciano garantiu que aquele juramento era feito com prazer, pois partilhava a mesma admiração pela beleza e exuberância da mata que seu amigo tanto prezava. Difícil imaginar que aqueles homens estivessem conscientes que naquele momento estavam começando a escrever um dos capítulos mais belos da preservação do meio ambiente no Brasil e selando o destino do maior e mais importante primata das Américas, o muriqui-do-norte. 


Preservar a mata não foi tarefa fácil, especialmente numa época em que a derrubada da floresta era festejada com uma churrascaria e era motivo de orgulho para aqueles pioneiros que garantiram a expansão das terras agriculturáveis em Minas Gerais. Chamado de louco por alguns, incompreendido por muitos, Feliciano conservou incólume seu pedaço deMata Atlântica a despeito do que pensavam os outros fazendeiros da região.

Muitas vezes enfrentou com bravura caçadores que insistiam em caçar em suas terras bem como exploradores de madeira e palmito. Frequentemente mostrava as marcas de bala no reboco externo de sua casa na sede da fazenda, como "prémio" dos caçadores por sua perseverança em não permitir sua atuação. No entanto, nunca se esquecia de recomendar a seus empregados que cuidassem de não atingir os cachorros quando da repressão à caça, afinal animal não puxa gatilho, dizia ele.

Foi somente próximo à década de 70 que veio a conhecer um novo tipo de personagem interessado pela mata: os pesquisadores. Após tantos anos defendendo solitariamente sua reserva, foi com uma certa desconfiança que viu surgir esta nova figura, que dizia buscar na mata somente informações

 

Primeiramente com o Professor Álvaro Aguirre e depois como Professor Célio Vá lie, os "tesouros" escondidos na mata começaram a ser divulgados para a comunidade científica. Em 1977, o Professor Akira Nishimura inicia os primeiros estudos sistemáticos sobre os muriquis, abrindo o caminho para muitos outros que viriam juntar-se a Feliciano na tarefa de preservar aquele precioso pedaço de Mata Atlântica. Dentre estes pioneiros, estava o Dr. Russell Mittermeier, que veio a apresentar a mata e seus muriquis a Dra. Karen Strier, pesquisadora que vem dedicando os últimos 20 anos a pesquisar seus costumes e organização social, presenteando o mundo com descobertas fascinantes e surpreendentes sobre o maior e mais pacífico primata das Américas.

Ao doar uma pequena casa no coração da mata para que os pesquisadores tivessem uma base de apoio para seu trabalho, Feliciano encontrou a solução para o problema de manter a mata sob constante vigilância e garantindo sua preservação. A iniciativa lhe valeu ganhos muito além de suas expectativas de preservar a floresta, um grande número de bons amigos e companheiros que lhe acompanhariam, mesmo de longe, pelo resto de sua vida.

Quando aos 92 anos, em junho de 2000, Feliciano veio a falecer, levou consigo a certeza de haver deixado um legado de respeito e amor pela natureza com ramificações incomensuráveis.
Sua relação com a mata e os muriquis despertou muita admiração e reconhecimento. Foi condecorado por diversas instituições por sua iniciativa preservacionista, que remonta a uma época em que o termo Ecologista não havia sido sequer formulado, sem esperar por nada em troca.

O único tributo que cobrou por esta dedicação foi levar consigo dois símbolos exuberantes desta incrível jornada de vida. Pode ser coincidência, porém preferimos acreditar que foi por solidariedade ao amigo e protetor que, poucas semanas após seu falecimento, o gigantesco e centenário jequitibá, que era o portal da mata, simplesmente caiu em uma tarde calma de outono. Em seguida o mais querido e mais antigo muriqui (Cutlip) do grupo do Matão também veio a falecer. Guardamos no coração a certeza que estão juntos em outra esfera semeando a solidariedade e a cooperação entre os homens e a natureza.

Agraciados com herança de tamanha responsabilidade, sua esposa e filhos decidiram homenageá-lo de maneira a garantir a preservação de sua mata. Da Fazenda Montes Claros foram separados os pastos e lavouras e a área de Mata Atlântica foi transformada em caráter perpétuo na RPPN (Reserva Particular do Património Natural) Feliciano Miguel Abdala, oficializada através de Título de Reconhecimento, de acordo com a Portaria 116 de 3 de Setembro de 2001 do IBAMA.

São novos tempos e novos desafios se impõem para garantir a preservação deste património a Longo prazo. Dessa forma, a família Abdala com o apoio da comunidade de Caratinga e de todos aqueles que se interessam por esta luta, lançou numa iniciativa arrojada, em 16 de Dezembro de 2002, a organização não-governamental Preserve-Muriqui, com o objetivo de administrar a propriedade e implantar as soluções de manejo auto-sustentado da reserva, buscando a parceria de outras ONGs, instituições de ensino e pesquisa e o apoio dos órgãos de governo.

Nossa missão é manter o foco na simplicidade e sabedoria com que Feliciano respondeu ao ser questionado, certa vez, por que preservou aquela mata: "Não podemos retirar da natureza aquilo que não poderemos jamais lhe devolver".

Ramiro Abdala Passos

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