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  RPPN FELICIANO MIGUEL ABDALA | HISTÓRICO  
     
    Filho de um imigrante libanês com uma brasileira, Feliciano Miguel Abdalla encontrou nas lides com a terra sua verdadeira vocação. Ao contrário do pai, comerciante, apaixonou-se por trabalhar a terra e dela tirar seu sustento. Jovem e ousado, alimentava o sonho em adquirir uma propriedade que lhe "enchia os olhos", na qual era feita uma das pausas para "dormida" da tropa de mulas, único meio de transporte que propiciava o comércio naquele tempo. Até que numa manhã de inverno do ano de 1944, quando a névoa ainda recobria a paisagem, Feliciano convidou "Seu Benzinho", proprietário da Fazenda Montes Claros, para uma conversa a dois.

A amizade, que então já os unia, facilitou a negociação e em pouco tempo acertaram as condições da venda. No entanto, antes de fechar o negócio com o fio do bigode, Seu Benzinho impôs uma condição: Feliciano deveria jurar proteger a mata da fazenda. Refeito da surpresa que o pedido pudesse ser algo que impedisse o negócio, Feliciano garantiu que aquele juramento era feito com prazer, pois partilhava a mesma admiração pela beleza e exuberância da mata que seu amigo tanto prezava. Difícil imaginar que aqueles homens estivessem conscientes que naquele momento estavam começando a escrever um dos capítulos mais belos da preservação do meio ambiente no Brasil e selando o destino do maior e mais importante primata das Américas, o muriqui-do-norte.
 

Preservar a mata não foi tarefa fácil, especialmente numa época em que a derrubada da floresta era festejada com uma churrascaria e era motivo de orgulho para aqueles pioneiros que garantiram a expansão das terras agriculturáveis em Minas Gerais. Chamado de louco por alguns, incompreendido por muitos, Feliciano conservou incólume seu pedaço deMata Atlântica a despeito do que pensavam os outros fazendeiros da região.

Muitas vezes enfrentou com bravura caçadores que insistiam em caçar em suas terras bem como exploradores de madeira e palmito. Frequentemente mostrava as marcas de bala no reboco externo de sua casa na sede da fazenda, como "prémio" dos caçadores por sua perseverança em não permitir sua atuação. No entanto, nunca se esquecia de recomendar a seus empregados que cuidassem de não atingir os cachorros quando da repressão à caça, afinal animal não puxa gatilho, dizia ele.

Foi somente próximo à década de 70 que veio a conhecer um novo tipo de personagem interessado pela mata: os pesquisadores. Após tantos anos defendendo solitariamente sua reserva, foi com uma certa desconfiança que viu surgir esta nova figura, que dizia buscar na mata somente informações.

Primeiramente com o Professor Álvaro Aguirre e depois como Professor Célio Vá lie, os "tesouros" escondidos na mata começaram a ser divulgados para a comunidade científica. Em 1977, o Professor Akira Nishimura inicia os primeiros estudos sistemáticos sobre os muriquis, abrindo o caminho para muitos outros que viriam juntar-se a Feliciano na tarefa de preservar aquele precioso pedaço de Mata Atlântica. Dentre estes pioneiros, estava o Dr. Russell Mittermeier, que veio a apresentar a mata e seus muriquis a Dra. Karen Strier, pesquisadora que vem dedicando os últimos 20 anos a pesquisar seus costumes e organização social, presenteando o mundo com descobertas fascinantes e surpreendentes sobre o maior e mais pacífico primata das Américas.

Ao doar uma pequena casa no coração da mata para que os pesquisadores tivessem uma base de apoio para seu trabalho, Feliciano encontrou a solução para o problema de manter a mata sob constante vigilância e garantindo sua preservação. A iniciativa lhe valeu ganhos muito além de suas expectativas de preservar a floresta, um grande número de bons amigos e companheiros que lhe acompanhariam, mesmo de longe, pelo resto de sua vida.

Quando aos 92 anos, em junho de 2000, Feliciano veio a falecer, levou consigo a certeza de haver deixado um legado de respeito e amor pela natureza com ramificações incomensuráveis.
Sua relação com a mata e os muriquis despertou muita admiração e reconhecimento. Foi condecorado por diversas instituições por sua iniciativa preservacionista, que remonta a uma época em que o termo Ecologista não havia sido sequer formulado, sem esperar por nada em troca.

O único tributo que cobrou por esta dedicação foi levar consigo dois símbolos exuberantes desta incrível jornada de vida. Pode ser coincidência, porém preferimos acreditar que foi por solidariedade ao amigo e protetor que, poucas semanas após seu falecimento, o gigantesco e centenário jequitibá, que era o portal da mata, simplesmente caiu em uma tarde calma de outono. Em seguida o mais querido e mais antigo muriqui (Cutlip) do grupo do Matão também veio a falecer. Guardamos no coração a certeza que estão juntos em outra esfera semeando a solidariedade e a cooperação entre os homens e a natureza.

Agraciados com herança de tamanha responsabilidade, sua esposa e filhos decidiram homenageá-lo de maneira a garantir a preservação de sua mata. Da Fazenda Montes Claros foram separados os pastos e lavouras e a área de Mata Atlântica foi transformada em caráter perpétuo na RPPN (Reserva Particular do Património Natural) Feliciano Miguel Abdala, oficializada através de Título de Reconhecimento, de acordo com a Portaria 116 de 3 de Setembro de 2001 do IBAMA.

São novos tempos e novos desafios se impõem para garantir a preservação deste património a Longo prazo. Dessa forma, a família Abdala com o apoio da comunidade de Caratinga e de todos aqueles que se interessam por esta luta, lançou numa iniciativa arrojada, em 16 de Dezembro de 2002, a organização não-governamental Preserve-Muriqui, com o objetivo de administrar a propriedade e implantar as soluções de manejo auto-sustentado da reserva, buscando a parceria de outras ONGs, instituições de ensino e pesquisa e o apoio dos órgãos de governo.

Nossa missão é manter o foco na simplicidade e sabedoria com que Feliciano respondeu ao ser questionado, certa vez, por que preservou aquela mata: "Não podemos retirar da natureza aquilo que não poderemos jamais lhe devolver".

Ramiro Abdala Passos